João Paulo Seara Cardoso
Entrei no Teatro de Belomonte quando as paredes ainda cheiravam a tinta e as madeiras absorviam o verniz. A luz que durante a manhã entrava pelas janelas do piso do escritório, ainda por mobilar, salientava nas linhas que delimitavam aquele espaço, alguma espécie de possibilidade em potência difícil de explicar. Sentia-se que iam acontecer coisas especiais naquela casa. E aconteceram. Com João Paulo Seara Cardoso e outros companheiros vivemos ali (e um pouco por todo o mundo), intensamente, alguns anos de grande vitalidade e energia criativa.
Recordar estas impressões das minhas primeiras idas à casa do Teatro de Marionetas do Porto, há quase dezoito anos, é um exercício emocionalmente complexo. Talvez por não ser possível deixar de contrapô-las a outras, bem mais recentes, no mesmo espaço, refiro-me à homenagem realizada por alguns amigos nessa mesma casa, no dia seguinte à morte demasiado prematura do João Paulo. Regressar a este espaço, carregado de vida e das memórias de anos de trabalho de criação da ilusão e do efémero, de outras realidades e imaginá-lo sem a sua presença efectiva, é ainda uma tarefa muito complicada.
O teatro de João Paulo Seara Cardoso foi, e tem sido, habitado por espíritos de todos os tempos. Existia neste teatro um fascínio assumido pelo novo nas suas mais diversas formas, assim estas se materializassem em novos sentires e outros sentidos para o mundo dos viventes. Na sua prática teatral parecia operar-se uma transformação semelhante à edificação do Teatro de Belomonte ou do Museu de Marionetas do Porto, a criação de um pensamento arquitectónico contemporâneo sobre um edifício com uma estrutura e uma função (nesta cidade) de outros tempos. Novas formas e funções surgiam sobre outras que, entretanto, nunca desapareciam completamente e que podiam ser revisitadas sempre que necessário, mas já sob uma nova perspectiva, num “processo dialéctico entre tradição e modernidade”, como o próprio João Paulo por vezes definia.
A sua produção artística foi muito vasta, entre Teatro Dom Roberto e Make Love Not War, ao longo de mais de vinte anos, João Paulo dirigiu cerca de cinquenta espectáculos, e uma análise do conjunto da sua obra não cabe num texto deste tipo. Optarei por uma visão mais próxima, de dentro enquanto estive por dentro, e de perto depois disso. Colaborei com este artista numa dúzia, bem medida, de projectos diferentes.
Entrei na companhia como estagiário no momento em que se estava a começar a pensar no espectáculo Vai no Batalha, estreei-me na revista, portanto; mas numa revista de traços surrealistas, com marionetas e à moda do Porto. A última criação do TMP em que participei foi Paisagem Azul com Automóveis, uma peça que reflectia sobre a contemporaneidade e a globalização (e.g. o texto era integralmente em inglês) e que se encontrava em vésperas de estreia quando se deu o 11 de Setembro. Entre uma experiência e outra pude assistir a uma transformação do pensamento e da acção, a este período correspondem dois movimentos apenas aparentemente opostos: paralelamente a uma certa inquietude artística e criativa em que foram experimentados caminhos e estéticas muito diferentes, foi decorrendo uma fixação, ou apuro dos processos criativos, na sua relação com o tempo e os métodos. A improvisação sistemática sobre as relações do corpo dos actores /manipuladores com objectos e marionetas, o recurso a fragmentos de textos não-dramáticos e a utilização de bandas sonoras indutoras de certos estados emotivos, ou estéticos, nas improvisações de maior duração, eram, e terão continuado a ser, ferramentas principais de uma pesquisa que assentava num princípio de grande liberdade no seio do colectivo.
A este período corresponde também uma consagração inequívoca, quer a nível nacional quer internacionalmente, onde o trabalho do Teatro de Marionetas do Porto representou Portugal (…e o Porto) nalguns dos mais importantes festivais da Europa. Nesta altura a companhia extravasa definitivamente o circuito dos festivais de marionetas e inscreve-se cada vez mais nas linhas de programação da transdisciplinaridade da cena contemporânea. A parceria criativa (e amorosa) com a coreógrafa Isabel Barros terá sido determinante nesta abertura a novos espaços quer de exposição, quer de conceptualização e prática.
Talvez seja cedo para determinar a verdadeira importância do papel de Seara Cardoso no teatro português, para já podemos dizer que pode ser entendida sobretudo na medida em que este criou um espaço que pura e simplesmente não existia no nosso universo teatral. Um espaço que artistas mais novos têm vindo, virão, a habitar e a expandir e que se situa no lugar onde o teatro se torna mais capaz de dialogar, de tentar a miscigenação com as outras artes. Um espaço do imaginário partilhado pelos muitos milhares de pessoas que constituem a grande corrente de público que segue o trabalho do TMP
Os anos que partilhei com o TMP e que dediquei ao trabalho com João Paulo Seara Cardoso passaram depressa e bem (afinal sempre há quem, mas são muito raros…). Foram anos de grande aprendizagem, com ele aprendi muito como artista e como homem. Uma das suas mais interessantes características era justamente o seu carácter, marcado pela coerência nas convicções, pela lealdade e franqueza na amizade. Outra era o seu espírito empreendedor, que não esmorecia perante as dificuldades que todos vivemos. Finalmente, era dono de um sentido de humor inteligente e contagiante, por vezes desconcertante.
Estamos a falar de um artista que está entre os melhores que esta cidade criou e que marcou várias gerações de artistas e de espectadores, se pensarmos nas centenas de pessoas que ao longo dos anos trabalharam nos seus projectos, na sua actividade como professor de interpretação no Balleteatro (onde eu próprio fui seu aluno) e na criação teatral e televisiva dedicada ao público mais novo, compreendemos como soube construir um legado marcante. Um artista que, apesar de ter ao seu alcance meios de produção relativamente contidos, transformou a paisagem cultural da cidade e projectou o seu nome no mundo. Uma cidade que entretanto se vai tornando cada vez mais pobre e irrelevante, que vive marcada pelo ritmo da morte inesperada de alguns dos nossos mais brilhantes agentes culturais e embrutecida por sucessivos anos de uma política local de hostilização à arte e à cultura. A destruição cega de espaços e projectos que levaram anos a afirmar e a promoção da massificação e do isolamento, onde o acessório é promovido a essencial, e o brilharete primário de uma sucessão de pseudo-eventos serve apenas para impedir que algo aconteça.
No âmbito do Festival Internacional de Marionetas do Porto 2010, aquele que acabou por ser o seu último acto público, a apresentação do espectáculo Make Love Not War foi um momento de partilha e despedida da cidade.
Igor Gandra
Marionetista, Director artístico do Teatro de Ferro
e do Festival Internacional de Marionetas do Porto.
Publicado em “O Tripeiro”
